O início da viagem também significava o princípio de uma aventura: a viagem pelo
Atlântico, que dependendo das condições a viagem pelo Atlântico levava de 90 a 120
dias. Os suíços que haviam chegado ao Brasil em 1819, oriundos de Freiburg e que aqui se
instalaram em Nova Friburgo, tiveram uma viagem desastrosa. Por falta de organização
aguardaram por 2 meses o embarque no porto da Holanda. Mal instalados ali mesmo enterraram
43 emigrantes. Os 2.018 montanheses arrebanhados por campos e aldeias atravessaram o
Atlântico espremidos em 7 barcos. Um dos barcos, o Urânia, em que embarcaram 437
passageiros, devido a uma epidemia, marcou sua rota marítima com um rastro de 107 corpos.
Mais de 1 cadáver por dia. Um quarto dos passageiros lançados do tombadilho. No Rio de
Janeiro outra mortandade em decorrência de febres tropicais. Ao todo, de uma Friburgo à
outra, a velha na Suíça e a nova no Rio, somaram-se 389 baixas. Dos 2.018 colonos que
saíram chegaram apenas 1.631, índice de mortandade parecido com o dos navios negreiros!Com o ingresso de Major Schaeffer no processo imigratório isto não haveria de acontecer. Homem extremamente diligente organizou com todo o cuidado os embarques. Em cada uma das 27 expedições que organizou de 1824 a 1829 havia um "comandante do transporte" ou "chefe da expedição", que zelavam pela disciplina, pela higiene bordo bem como dos direitos e deveres dos passageiros. A alimentação não era descurada. Os comandantes convidavam passageiros para os seus camarotes para comprovar que a alimentação servida aos tripulantes era a mesma que era servida aos passageiros. Em cada navio havia um médico cirurgião, farmacêutico e enfermeiros para cuidar da saúde bem como da higiene para evitar a erupção de epidemias à bordo. Evidentemente que ocorreram mortes nas viagens, mas estas sempre foram decorrentes de causas diversas, e não devidos à má alimentação ou falta de higiene da embarcação ou das passageiros. Embora mais seguras quanto à moléstias as viagens não deixavam de representar um grande temor para os passageiros. Vamos resumir apenas o que aconteceu com 4 das 27 embarcações que chegaram ao Rio de Janeiro de 1824 a 1829. O lº veleiro, o Argus saiu de Hamburgo 27.7.1823 e desde o início foi assolado por fortes tempestades que sopravam para o Oeste. Depois de perder o mastro central atracou no porto holandês de Texel. Durante as reformas cerca de 26 passageiros fugiram com medo de prosseguir a viagem. Em 10 de setembro reiniciou a viagem que não foi mais feliz que a primeira. Nova tempestade os obrigou a arribar na Ilha de Wight, ainda na Holanda. Depois de 15 dias, inicia a terceira partida mas um forte furacão obriga a embarcação a atracar no Porto de Biscaia na Espanha e mais tarde nas costas da África, onde após muitas delongas conseguiu fazer um ancoradouro seguro na Ilha de Tenerife, de onde partiu no dia 8 de Novembro para chegar no dia 7 de Janeiro de 1824 ao Rio de Janeiro, trazendo 284 pessoas, sendo 134 colonos e 150 soldados. Entre os passageiros encontrava-se o pastor Friedrich Oswald Sauerbronn, o primeiro pastor evangélico do Brasil que se radicou em Nova Friburgo cuja esposa faleceu durante a viagem em virtude de um parto. No Argus também viajou Karl Niethammer o primeiro boticário da Colônia Alemã de São Leopoldo. Outro veleiro que passou por peripécias foi o Germania que trouxe a 4º leva de imigrantes. Capitaneado por Hans Voss e tendo como "comandante do transporte" o Ten. Ferdinand von Kiesewetter. Partiu em 9.5.1824 de Hamburgo até o porto de Glückstadt, no Rio Elba, de onde zarpou em 3.6.1824. Chegou ao Rio de Janeiro no dia 14.9.1824 trazendo 401 passageiros sendo 277 soldados e 124 colonos. A bordo viajaram o pastor Johann Georg Ehlers, Karl von Ende e Johann Daniel Hillebrand. Ehlers seria, o primeiro pastor evangélico de São Leopoldo e que iniciou os registros eclesiásticos ainda à bordo do Germania; Karl von Ende o primeiro médico e Hillebrand também médico e depois o primeiro administrador da Colônia Alemã de São Leopoldo. A viagem deste veleiro foi marcada por rebeliões e desordens. O navio além de 124 colonos trazia também 277 soldados, entre eles um pequeno contingente de ex-prisioneiros saídos das casas de reclusão de Hamburgo. Ainda atracado em Glückstadt no Elba um recruta tentou incendiar a embarcação. Durante uma tempestade houve rebelião a bordo. Efetuadas as investigações por uma Comissão foram responsabilizados 8 passageiros, todos ex-prisioneiros das prisões de Hamburgo que foram julgados e fuzilados. O Pastor Ehlers e o médico Hillebrand faziam parte da Comissão. O veleiro Cäcilia também teve uma viagem sinistra. Depois de passar por terrível tempestade em que perdeu todos os seus mastros, foi abandonado pelo Capitão por considerar a embarcação perdida. Ficou vagando ao "Deus dará" pelo Canal da Mancha até ser encontrado por um barco inglês que o rebocou até o porto de Plymouth na Inglaterra. Ali os náufragos aguardaram por 2 anos por um novo embarque para a América, fato proporcionado para interferência da imperatriz austríaca D. Amélia von Leuchtenberg em viagem ao Brasil. Os passageiros do Cäcilia que deixaram a Alemanha em 1827 chegaram ao Rio de Janeiro no dia 29 de Setembro de 1829, sendo esta data comemorada, ainda hoje, no "Michelskerb" (Kerb de São Miguel) de Dois Irmãos e São José do Hortêncio onde a maioria dos passageiros do Cäcilia se estabeleceram. Não menos tormentosa foi a viagem do brigue holandês "Ativo". Depois de uma tormentosa travessia do Atlântico ao invés de atracar no Rio de Janeiro arribou na costa de Pernambuco, onde 122 dos 140 passageiros ( 18 faleceram na viagem) foram abandonados à própria sorte. Fundaram um pequeno núcleo germânico que batizaram de Santa Amélia. Dedicaram-se à agricultura rudimentar e à produção de carvão vegetal. Consta que alguns com recursos próprios e viajando até em carros de boi, chegaram anos depois ao Rio Grande do Sul.
A relação de acidentes com embarcações, no 1º período da imigração que vai de 1824 a 1830, encerra-se com a naufrágio do Bergantim Flor de Porto Alegre. Saiu do Rio de Janeiro em fins de 1824 com destino a Porto alegre. No início de Janeiro de 1825 naufragou na costa gaúcha, encalhado nos bancos de areia em frente a Mostardas. Dos 61 passageiros 2 morreram afogados. Os demais salvaram-se nadando até a praia onde foram acolhidos pelos moradores do lugar. Cerca de 15 colonos instalaram-se em Torres. Os demais náufragos entre eles o pastor Leopold Voges chegaram no dia 11.2.1825 em São Leopoldo. Nos 27 embarques organizados por Schaeffer no período de 1824 a 1829, chegaram ao Rio de Janeiro cerca de 5.000 colonos e outros tantos soldados. Estes eram engajados nos Batalhões dos Estrangeiros. Os colonos ficavam alojados em galpões da Praia Grande ( Niterói), aguardando viagem ao sul. Enquanto a travessia oceânica era feita em navios de 3 mastros, os viagens para Porto Alegre eram efetuadas em bergantins, sumacas e escunas, com 2 mastros apenas, por causa do pouco calado da barra de Rio Grande. A Capital da Província de São Pedro era atingida em média em 3 semanas de viagem. Aqui depois de recepcionados pelo Presidente da Província ficavam alojados na extremidade sul do porto, em prédio do arsenal de guerra, próximo à atual usina do gasômetro. Para o transporte até São Leopoldo, na época conhecida por "Passo do Courita" ( ali morava um português natural de Coura) eram utilizados lanchões toldados, movidos à vela e à remo. Em carretas os colonos chegavam à Feitoria do Linho-Cânhamo onde ficavam alojados até o recebimento do seu lote de terras. A Feitoria havia sido fundada em 1783 pelo vice-rei Dom Luiz de Vasconcellos e Souza e instalada inicialmente no sul do Estado no local então denominado de "Rincão do Caguçu". Seu objetivo era plantar o linho-cânhamo, cientificamente conhecida por "canabis sativa" e que hoje e conhecida por "maconha". Esta planta fornecia excelente fibra para a fabricação de cordas, cordoalhas e velas largamente empregadas na navegação da época. Devido a sucessivos déficits, creditados à baixa produtividade das terras, foi a Feitoria em 1788 transferida para as margens do Rio dos Sinos. Os resultados ali obtidos também não foram satisfatórios. Por isso foi extinta em 31.3.1824. Suas terras, correspondentes a duas léguas, correspondentes a 180 colônias de 100.000 braças quadradas, foram subdivididas e distribuídas entre os colonos alemães que ali aportaram, em numero de 39 pessoas no dia 25 de Julho de 1824. Dos 321 escravos apenas 9 permaneceram na Feitoria à disposição do administração José Thomás de Lima e que prestaram grande serviço na construção das casas para o alojamento dos imigrantes que ano a ano vinham em maior número. Em 1824 chegaram em São Leopoldo 126 imigrantes; em 1825 = 909; em 1826 = 828; em 1827 = 1.088; em 1828 = 99; em 1829 = 1.689 e em 1830 chegaram 117 totalizando 4.830. imigrantes. Os recém chegados à Feitoria de logo se depararam com novos problemas:
Todos estes problemas e percalços não foram suficientes para demover o espírito empreendedor daquela pobre mas trabalhadora gente. Apenas um ano após a chegada dos primeiros imigrantes, junto ao "Passo do Courita" artesãos que não possuíam aptidão para o trabalho na terra haviam formado uma florescente povoação, posteriormente batizada de São Leopoldo. No primeiro período da imigração que vai de 1824 a 1830 todo os vale do Rio dos Sinos havia sido ocupado pelos imigrantes. Além de São Leopoldo haviam fundado Novo Hamburgo (Hamburgerberg), Campo Bom, Dois Irmãos (Baumschneis), Ivoti (Berghanerschenis, depois Bom Jardim), Estancia Velha, Sapiranga (Leonerhof), além de São José do Hortêncio (Portugiserschneis). A partir de 1836 haviam também ocupado terras ao leste de São Leopoldo como Taquara do Mundo Novo, fundada por Tristão Monteiro e Igrejinha, por eles batizada de "Kleinkirchen"; Em todas estas localidades o comércio, a indústria e os artesãos ( sapateiros, curtidores, seleiros, ferreiros, carpinteiros, tecelões, alfaiates, etc. ) estavam em franco progresso, quando em 1835 estourou a Revolução Farroupilha. Os imperiais ou legalistas juntaram-se ao Dr. Hillebrand a quem também se juntaram o major Ferdinand Maximilian Kersting, Tem. Heinrich Wilhelm Mosye e outros; os rebeldes ou farroupilhas uniram-se ao Major Hans Ferdinand Albrecht Hermann von Salisch nomeado, pelo governo revolucionário, Diretor da Colônia de São Leopoldo. Durante os 10 anos da Revolução as atividades da Colônia estiveram paralisadas. O envolvimento da Colonia Alemã neste triste episódio que dividiu a família riograndense, teve a participação de centenas de imigrantes, lutando de ambos os lados, semeando a morte e a destruição em toda região. |